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"A METRALHADORA DO MALDITO"
Silvana Arantes - JORNAL HOJE EM DIA - QUARTA-FEIRA 24/03/1999

"Sou uma reta. Não ando sinuosamente", assegura o cantor, violonista, compositor e ex-maldito da MPB JARDS MACALÉ. Contando um salto alto de 11 anos na linha de lançamentos de sua discografia, entregou ano passado ao público O Q EU FAÇO É MÚSICA  (selo Atração). Com a parceria do arranjador Cristóvão Bastos (o preferido de Edu Lobo), desafia no álbum verve e ritmo espalhados por "maracatus", blocos de samba, serestas, chorinhos, samba de breque, blues-canção e um solo dedicado ao Oliveira - o João Gilberto.

Se homenageia mestre João, alisa sua mágoa por aquele outro baiano ilustrado da música nacional. Nos anos de chumbo, Macalé chegou a excursionar com Caetano Veloso pela Europa e sentar praça em Londres, onde compôs os arranjos do aclamado "Transa". Hoje, esclarece que O Q EU FAÇO É MÚSICA é titulo extraído de definição do amigo Helio Oiticica para o próprio trabalho. "Só que roubei com bastante clareza, não roubei a palavra Tropicalha" - acentua, num "adeno provocador". Questão de crédito, ironiza.

Hoje, em um único show em Belo Horizonte, apresenta o repertório do novo trabalho e pensa em "pinçar na hora coisas de Noel, talvez Ari Barrosso, Dorival Caymmi, Chico Buarque", cujas obras conhece sobejamente e ajudou a compilar nos songbooks produzidos por Almir Chediak. (o de Chico, "acorda, amor", deve chegar às lojas em breve). Em consonância com os tempos bicudos, sobe ao palco acompanhado da "banda econômica". "Eu sozinho e o violão".

O compositor se aliou ao teatro de resistência, "entrou" para o cinema em "Macunaima", de João Pedro de Andrade, atuou em "Tenda dos Milagres" e "O Amuleto de Ogum" , de Nelson Pereira dos Santos, fez a trilha de "Imagens do Inconsciente", de Leon Hirzsman e aproximou-se das artes plásticas. Fala de música, de cinema, do Brasil da ditadura e da "ditamole". Para concluir que o país é excessivamente talentoso e o brasileiro, sofisticado, embora o que apareça seja "o de menos".

Depois de 11 anos sem gravar, a rotina de estúdio exigia pela produção de `"O Q EU FAÇO É MÚSICA" o aborreceu ou agradou?
Quando fui convidado para fazer esse disco pela Atração, me perguntaram o que eu precisava para fazer um disco. Respondi: Nada. Os melhores músicos, o melhor estúdio, os melhores técnicos, o melhor maestro, o melhor orquestrador. Eles me deram carta branca e simplesmente disseram: Faça. Convidei o pianista e compositor Cristóvão Bastos para ir a casa da minha mãe em Penedo (RJ) . No meio do mato fizemos orquestrações ao som das borboletas. No silêncio. Depois voltamos para o Rio, marcamos estúdio e gravamos as bases com um pessoal excepcional - Julinho Moreira na bateria, João Helder no baixo, João Lira no violão e guitarra. Convidei Lanny Gordin, um grande músico com quem já fiz grandes trabalhos e que participou da gravação de meu primeiro disco, em 1973. Então gravamos agora "Vapor Barato", que é uma coisa daquela época, e que eu nunca tinha gravado. Ai fizemos o disco na maior tranqüilidade. Paramos quando quisemos, voltamos quando quisemos, o que não ficou bom, regravamos. Enfim, foi muito prazeroso e divertido.

Os problemas de distribuição de seus trabalhos permanecem. Em Belo Horizonte, por exemplo, e difícil encontrar o disco novo nas lojas. A que se deve?
Acho que ao próprio sistema de distribuição geral. É como o cinema brasileiro. A Atração é um selo profissional, paulista, faz a coisa certa, mas neste momento tem que brigar por espaços dentro de grandes distribuidoras.

Na última vez que veio a Minas (Festival de Inverno de Ouro Preto/97) , declarou que estava difícil fazer música depois da invasão das bundas da MPB. Esta ressalva é dirigida ao gosto popular, à indústria fonográfica, ou a ambos?
O gosto popular é formado pelo mecanismo de marketing das indústrias. Tanto faz a bunda. Se você pega uma e coloca 24 horas por dia na televisão...Mas se coloca 48 horas o Villa-Lobos, pelo mesmos há uma divisão . O problema é que o gosto popular fica mais definido pelo volume ditatorial do marketing em cima da bunda dos outros.

A sua música, em particular, é mais sofisticada do que o gosto popular alcança?
Não. É que estão nivelando o gosto popular por baixo. Um brasileiro, em princípio, é pessoa sofisticada, pela própria confusão na qual está metido. A música brasileira é muito sofisticada. Você pode ter um Antonio Carlos Jobim, sendo a segunda execução mundial. Só os Beatles tocam mais que Jobim no mundo. Mas você não tem uma bunda brasileira internacional. A música brasileira está no mundo. A bunda brasileira só ficou no Brasil. Isso tudo é uma esculhambação. Não sou moralista, mas o que faço é musica. Não quero me misturar com essa confusão.

Qual é o publico disposto a essa caça ao tesouro?
É uma gente engraçada. Uns acompanham desde quando tudo começou, eu diria, 1965. Além desse, o público foi se refazendo, com os filhos, os primos, os pares, ou aqueles que descobriram, a uma certa altura do campeonato. Agora, por exemplo, depois de 11 anos sem gravar, recebi uma crítica do "Estadao" de que esse era um dos melhores discos do ano. A minha imodéstia me impede de achar que esteja errado. Este disco - para nós que o fizemos, eu, a Atração, o Cristóvão Bastos é bom. Sem desmerecer tudo, para o que esta aí fora, ele é ex-ce-len-te. Quem rompe a barreira do som, desse som que esta aí, em trabalhos como o meu, o do Tom Zé, do Melodia, de Itamar, ou de algumas pessoas que não estão fortemente na mídia, mas que têm um trabalho conseqüente e condizente com o Brasil de agora, que comenta esse Brasil, é totalmente procedente com o público. Se a outra parte do público que ainda não antenou quiser abrir a cabeça e romper a barreira desse muro marketeiro, encontra outro som do outro lado.


"ACEITO O ROTULO DE MALDITO ATÉ 1987, DEPOIS EU RECUSO"
Silvana Arantes/ JORNAL HOJE EM DIA - BELO HORIZONTE - 24/03/1999

JARDS Macalé diz que não vai ao Programa do Faustão - "não agüento aquele programa, ele fala alto demais, grita, não agüento aquela gritaria". Não poupa também a festa do Oscar - "aquilo ali é um jogo de cartas marcadas, onde aparece até um general comandante das Forças Armadas dos E.U.A. para apresentar". Quanto a Roberto Benigni, define como "um idiota".

Certa insistência da mídia no rotulo de malditos é constrangedora?
Agora é, porque esse maldito nos foi dado lá por 70, quando nós, além de fazermos uma música não exatamente como o que estava rolando, éramos o outro lado da moeda. Lutávamos dentro da ditadura. Nossas palavras, atitudes e nossa música nos levaram a um ponto que a indústria fonográfica não sabia como catalogar. Maldito naquela época era elogio. O Brasil era um país amaldiçoado. Vários de nós fomos perseguidos, levamos cascudo e acabamos saindo do Brasil, ou expulsos ou porque já era inaguentável ficar. Só que o tempo passou, da ditadura caímos nessa "ditamole" que está aí e ficou o negócio como algo pejorativo. Eles conseguiram fazer isso. Queriam alimentar na época a coisa do maldito para vender nossa poesia, nossa música contra a ditadura. Era "ditamole" continuou o maldito para anular as nossas posições que continuavam e continuam fora do esquadro do Brasil. Então ficou uma coisa de maldito até 87. Depois, recuso-o totalmente.

Quando imodestamente aceita a classificação entre os melhores do ano, esta se colocando em que companhia?
Eu me coloco na 4ª companhia, porque fui do colégio Militar e sou de Infantaria. Meu pai é militar também. Fui expulso do colégio Militar.

Por quê?
Indisciplina. Tipo Itamar (pausa) Assumpção. Bom.... mas eu me coloco na companhia das pessoas que gosto Tom Jobim, João Gilberto, Tim Maia, Jorge Bem , Ademilde da Fonseca, Luiz Melodia, Eric Satie, que passa dias ouvindo.

Existe alguém compondo bem no Brasil?
Acho que sim. Aqui existe um problema de excesso, não de falta. É impressionante como o Brasil é excessivamente talentoso. E é impressionante como tendo de mais, aparece o de menos. Os músicos brasileiros são excepcionais, você tem Paulo Moura, Hermeto, Egberto, não só eles, Vila Nova, Cantador, Panela, repentistas de norte a sul. Os músicos do Rio Frande do Sul, que são geniais, tanto quanto os índios de Manaus. Tudo é música, tudo é invenção, tudo é novo para o mundo aí de fora. "Central do Brasil" é tão novo que teve que perder para aquele idiota ("A Vida é Bela" de Roberto Benigni).

Você considera "Central do Brazil" um filme injustiçado no Oscar?
É um grande filme. No Brasil, nesse momento, é. Mas aquilo ali (a festa do Oscar) é um jogo de cartas marcadas, onde aparece até um general comandante de forças Armadas dos Estados Unidos para apresentar. Virou questão do Pentágono. E é. Porque é ali que eles espalham a cultura deles por tudo quanto é canto, fazem todo mundo falar inglês. A globalização não é o que se fala, é a língua. Essa é que domina o mundo. O audiovisual é a maior invasão colonizadora que existe no mundo. Os americanos montaram esse indústria para dominar e para ganhar muito dinheiro.

Mas se "Central do Brazil" ou Fernanda Montenegro ganhassem o Oscar, estariam também beneficiando-se desse sistema. Há alguma forma de manter-se alheio?
Não. A única forma é se manter lúcido em relação a isso. A Fernanda e o Walter Salles estavam lúcidos todo o tempo, falando sobre as possibilidades desse filme e o significado dele para o Brasil.

Em outro patamar da relação com a indústria, seria possível ver Jards divulgando seu disco no "Domingão do Faustão"?
Não. Porque, primeiro, não agüento aquele programa. Ele fala alto demais, grita. Não agüento aquela gritaria. Segundo, qualquer bobagem que ele falasse para mim, eu iria revidar com a verdade, nunca com a falsidade. Então não acho que daria certo. Minha cara dá certo no Multishow, no GNT, até ao Jô vou bem , mesmo assim....


"NADAR CONTRA A CORRENTE"
Sérgio Moriconi/JORNAL DE BRASÍLIA - 19/02/1999

Artista múltiplo e original, JARDS Macalé volta a Brasília e faz shows hoje e amanhã no Gate's para lançar seu novo disco, O Q EU FAÇO É MUSICA

Tempos ingratos esses. Reconhecidamente uma das personalidades mais interessantes da música popular brasileira, MACALÉ foi sendo deixado de lado pela mídia e, o que é pior, carregando a pecha de maldito.

Ultimamente, costumava ser visto apenas em apresentações esporádicas. Afortunadamente, seus principais discos, hoje clássicos, o primeiro "JARDS MACALÉ" de 72 e o segundo "APRENDER A NADAR" de 73, foram relançados em Cd durante os anos 80. Depois suas aparições em discos foram se tornando cada vez mais raras. Mais recentemente, emprestou seu talento fazendo-se presentes nos songbooks de Noel Rosa (91), Vinícius de Morais (93), Dorival Caymmi (94), Ari Barroso (95), e Tom Jobim (96), todos editados pela Lumiar.

O Q EU FAÇO É MÚSICA" reafirma mais uma vez a excepcional coerência e qualidade do que faz. Parcerias inéditas com Glauber Rocha - na época Rei de Janeiro - Bertold Brecht, Vinícius de Morais, Capinam e ainda resgatando poemas desconhecidos de um dos seus mais fieis parceiros, Torquato Neto, não deixam dúvidas quanto ao tipo de matriz do seu trabalho. São mais de trinta anos de vida musical, parte dela em meio ao caldeirão cultural fumegante nos final dos anos 60. Nesse contexto, não era quem vendia mais que valia mais. Para quem tem a informação dos anos 80, e preciso mesmo que se diga, era mesmo uma outra época. MACALÉ tem razão em dizer que o que faz é realmente isso que anda meio em baixa na MPB: música! Sem estratagemas de mercado. A ele, MACALÉ, nem sequer agrada o P da sigla. Prefere dizer que faz MB, Música Brasileira.

O novo disco, mais uma vez, mergulha no samba, no samba-canção, nos acentos blues, no rock, no choro, que são raízes da musica de MACALÉ. Freqüentador dos Tropicalistas, aos poucos foi criando sua voz própria. Sem negligenciar a bossa nova, criou uma persona mais próxima dos compositores urbanos cariocas, de sambistas com quem se identificava inteiramente, como Moreira da Silva e Geraldo Pereira, e também próxima a toda uma geração de velha guarda a qual a turma da Tropicália apenas dava uma atenção superficial. Em Cidade Lagoa, de Sebastião Fonseca e Cícero Nunes, por exemplo, MACALÉ faz mais uma homenagem a Morangueira. O choro "Mais Um Abraço No Nosso Amigo Radamés" e a curiosa mistura de bossa nova com choro de "Um Abraço No Oliveira" (dedicada a João Gilberto) demonstram que ele tem, sim, os dois pés numa certa tradição musical da cidade do Rio de Janeiro.

Foi Wally Salomão, seu parceiro mais constante, quem o incentivou a buscar uma identidade diferenciada dos baianos da Tropicália.. MACALÉ tinha tido um envolvimento muito grande com todos eles. Já em 66, fez direção musical e espetáculos de Maria Bethânia. Participou de reuniões que discutiram o movimento por surgir. Exímio instrumentista, tocou violão e guitarra em diversos discos de membros do grupo. Passou um período grande ao lado de Gal Costa para quem produziu LE-GAL e MEU NOME É GAL. Em 71, foi para Londres, a pedido de Caetano Veloso, ficando responsável pelos arranjos e direção musical do disco TRANSA.

De volta ao Brasil, resolveu impulsionar sua carreira individual. A essa altura, já era conhecido e polêmico. Apresentou Gotham City no IV FIC da TV GLOBO. Comendo, antes triturando uma rosa com os dentes, seria ainda mais conhecido pela voz de outros, ou outras. Bethânia gravou "ANJO EXTERMINADO", "MOVIMENTO DOS BARCOS", e Gal "HOTEL DAS ESTRELAS", "VAPOR BARATO".

Esta última transformou-se em hino de uma época e foi revalorizada recentemente quando incluída na trilha sonora do filme TERRA ESTRANGEIRA de Walter. Foi também gravada por O RAPPA. Sua atualidade surpreende. A letra expressava um estado de espírito típico dos anos negros da ditadura e que, serviu como uma luva a desilusão e a crise de identidade dos 90.

VAPOR BARATO E MOVIMENTO DOS BARCOS receberam novas versões no novo disco. Na primeira Macalé chama Lanny Gordin, guitarrista que foi uma das vozes mais eloqüentes da tropicália. Lanny conseguia a façanha de unir Jimmi Endros a Wes Montgomery. Um solitário acompanhamento no violão de aço dá um approach inteiramente insuspeitável a este recente VAPOR BARATO. Lanny também, se encarrega do solo em FAVELA, de Pandeirinho e Jorginho, samba que conta com a participação da Velha Guarda da Portela, do grande Monarco, e da voz doce de Cristina Buarque. O Q EU FAÇO É MÚSICA se vale de um time de acompanhantes de primeira. Todos são bons: Jorge Helder ( baixo ), João Lira (violão), Jurim (bateria), além dos que comparecem em uma ou outra faixa. Não se pode negar um destaque para Cristóvão Bastos que, além de tocar seu piano irrepreensível, divide a direção musical com o próprio Macalé. O excepcional Dino comparece com seu violão de sete cordas em O MAIS QUE PERFEITO. Em relação aos discos dos anos 70, mesmo Contraste, de 77, O Q EU FAÇO É MÚSICA tem uma concepção mais conservadora. Não se trata de um comentário depreciativo. Se o novo disco com certeza está menos concentrado na experimentação, de outro lado se investe numa conformação mais clássica, próxima de QUATRO BATUTAS E UM CORINGA (87) que Macalé grava em homenagem a quatro compositores e intérpretes que, em um ou outro aspecto, cada um a sua maneira, não deixaram de ser grandes influências - Paulinho da Viola, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues. Este disco , muito bonito, contava com um quinteto de cordas e um quarteto de sopros, sob orquestração e regência de Júlio Medalha.

Augusto de Campos foi o primeiro a notar semelhanças entre a arte de Macalé e Lupicínio, ao comentar o fundamental APRENDER A NADAR, fazia referência especialmente à maneira de cantar ao mesmo tempo expressionista e contida de ambos . Em Macalé, nota-se antes um distanciamento evidente em relação ao que se identifica como um transbordamento, no limite dos piegas, típico da canção brasileira pré-bossa. O excesso e o rebuscamento são os elementos dos quais Macalé se utiliza para criar o que chama "linha de morbeza romântica" de APRENDER A NADAR. Morbeza, mistura de morbidez e beleza era um teatro que ironozava a linha baixo astral dos samba-canções tipo dor-de-cotovelo.

Macalé subverter, para usar o termo de Augusto Campos, as letras ganham conotações de humor negro, porém, conservam o lirismo. Um outro lirismo, tenso, desesperado, opressivo no qual seu canto, intimamente conecta ao seu jogo de violão, e o mais eloqüente expressão. Se Lupicínio ri de si mesmo, Macalé expõe a deformação patética e grotesca da dor, extraindo para a sensibilidade moderna o que pode haver de belo no monstruoso. Augusto define a "morbeza romântica", dele e de Salomão, como a mais drástica retomada do bacilo-de Lupicínio.

Diferentemente dos tropicalistas - que mostravam o cafona, o anacrônico de fora para dentro - Macalé se joga na lama para extrair sua flor-do-lodo. Sua música, de tão dramática e cinematográfica, acabou fazendo com que se aproximasse do cinema. Participou das trilhas de MACUNAÍMA, de Joaquim Pedro de Andrade, O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO, de Glauber Rocha, A RAINHA DIABA, de Antonio Carlos Fontoura, entre outros, sem contar AMULETO DE OGUM, (75), de Nelson Pereira, onde participa como ator. No palco, esse gênio do pantelão pátrio, faz música para ser sentida e vista. Só com o violão , como na diatribe de Blues Suede Shoes, rock clássico de Carl Perkins , Macalé pode nos fazer estar diante do hipnótico paroxismo de um embolador de feira, quem sabe nos levar para a companhia dos morcegos que dão rasantes em funesta ruas de qualquer Gothan City.


"MACALÉ E O RIO PERDIDO"
Pablo Pires /O TEMPO - Jornal Belo Horizonte - 24/03/99

O compositor lança em seu ``O Q Eu Faço É Música``, CD que procura reencontrar o lado "bom e musical" do Rio de Janeiro

Em Belo Horizonte desde domingo à noite, o cantor e compositor Jards Macalé apresenta hoje o show de seu último disco, "O Q EU FAÇO É MÚSICA", no Lapa Multishow. Há 11 anos sem gravar, MACALÉ reincorporou o espírito carioca para realizar o disco, que é arranjado por Cristóvão Bastos.

O show de lançamento aconteceu há duas semanas no SESC Vila Mariana, em São Paulo, com a "banda econômica", como diz o Jards. Tem a banda do dólar, banda disso e daquilo, eu fiz uma banda econômica, mas como a banda econômica não pode vir porque eles estão com a Nana (a cantora Nana Caymmi) e tal então veio a banda hipereconômica que sou eu e o violão. E a síntese total do disco, e a essência, explica Macalé com seu típico humor.

"O Q EU FAÇO É MÚSICA" é uma frase do artista plástico Hélio Oiticica e uma declaração dos valores éticos e estéticos da música brasileira, como se o compositor afirmasse que em algum lugar ainda reside a riqueza de nossa música. O disco expõe a relação desse "Jards, da Silva, ou melhor, da selva, ou melhor...da vida" com sua enorme formação musical e também com as outras artes como o cinema, a poesia, o teatro e as artes plásticas.
Três letras/poemas do disco apontam para essa conexão: uma de Glauber Rocha, dada por dona Lúcia, mãe do cineasta, e outras duas entregues por Torquato Neto, dias antes do poeta se suicidar. "Eu fiquei com aqueles poemas na mão, queimando durante muito tempo", conta Macalé,  "até perceber que eles eram poemas de vida, vitais mesmo". O compositor, que já escreveu com Capinam, Vinícius de Morais e Wally Salomão, explica que o processo de musicar um poema varia com a parceria. "Com o Capinam eu trabalhava muito junto e quando ficava pronta a letra eu ia para a música. Com o Torquato não, ele me deixou essas duas prontas e eu fui em cima delas. O Wally a gente também trabalhou muito junto, corta aqui, corta ali, até chegar a hora de pôr a música.

O disco é repleto de referências à cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu o músico. "Eu quis fazer a coisa carioca porque o Rio de Janeiro é o Brasil e o Brasil é o mundo...coitadinho, mas é o mundo",   brinca. Macalé andava bastante desencantado com a Cidade Maravilhosa. No entanto, "nesse momento, a minha relação com o Rio está totalmente amorosa porque recuperei, pelo menos, sua paisagem na minha cabeça", fala.

O disco começa com o Rei de Janeiro, o poema de Glauber que, segundo o músico, revela à delicadeza e o amor de um brasileiro baiano pelo Rio de Janeiro. Em seguida, Favela, de Pandeirinho e Jorginho, criam imagens poéticas com o lado partido da cidade . "Cidade Lagoa" é um samba de breque que Moreira da Silva, um legítimo antecessor de Macalé, sempre cantou e só agora ganhou uma versão gravada na voz de Jards. O arranjador Cristóvão Bastos de Marechal Hermes, bairro do Rio, juntou-se a Macalé, da Tijuca, para recuperar essa coisa carioca boa, musical, densa e, ao mesmo tempo, delicada. Quis me situar dentro disso aí, revela Macalé.

Músico traz influências do cinema, do teatro e das artes plásticas

Como se todas as influências musicais não bastassem, Macalé também busca relações com outros campos artísticos . "O Q EU FAÇO É MUSICA" é dedicado "às Lygias": à Anet (sua mãe), à Clark, à Tom, "que é o topo das Lígias". O disco começa com um poema de Glauber Rocha e termina com uma música dedicada a Nelson Pereira dos Santos, expondo sua profunda relação com a sétima arte.

"Eu tenho mais relação com outras áreas que não a minha. Eu tenho mais relação com o pessoal de artes plásticas do que com os músicos. Tenho uma relação maior com a área do cinema, tenho relação maior com o teatro, com as pessoas de teatro, e com os humoristas, que foi o que salvou esses 11 anos sem gravar", afirma o músico.

Macalé já realizou algumas parcerias em artes plásticas. Junto com o poeta Wally Salomão fez a ambientação sonora de uma exposição de Hélio Oiticica e Lígia Pape "no topo do Hotel Meridien", no Rio. Outra ambientação foi realizada para uma exposição de Rubens Gerschman. E fez a trilha para o mesmo artista em um filme sobre o pai dele, que foi um grande desenhista industrial, informa o compositor.

Quando se toca no assunto de cinema e da visualidade de suas músicas. Macalé brinca "Pois é, isso é um filme, não é um disco. Veja o disco e ouça o filme". " Eu sempre amei o cinema", diz ele. E conta que sua avó, quando ia fazer as unhas, "comprar isso ou aquilo", o deixava no cinema, onde assistia a até oito horas de filmes por dia, cada vez gostando mais", exagera.

Mas a relação com o cinema não se limitava apenas a assistir a horas de filmes. Macalé foi convidado para musicar alguns poemas de Mário de Andrade para "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade. Hoje ele se diz impressionado quando ouviu as canções, "porque havia feito uma pecinha tão popular no sentido folclórico". E aí vieram outros filmes.

"O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro"`, de Glauber Rocha, teve um dedinho de Macalé, "que acabou não entrando no filé", diz ele. "Depois, o Nelson (Pereira Santos) me convida fazer a trilha sonora do "O AMULETO DE OGUM" e já me coloca como ator. Logo depois "A TENDA DOS MILAGRES", recorda o músico. "Aí eu vi o que era cinema, o que melhorou a minha música", afirma Macalé.

Com os papéis de ator nos filmes de Nelson pereira, Macalé diz ter aprendido "a encontrar os valores do personagem em mim próprio, que incorporei, já que já trabalhava com teatro e isso me interessava."

Na trilha sonora de "O Amuleto de Ogum"``, Jards afirma ter regido um trem. Eu vi que o maquinista tocava aquele trem como um instrumento. E em uma das paradas eu falei com o maquinista ``Meu amigo, você é um maestro, você toca esse trem como um instrumento! E ele "Se eu não tocar eu estou perdido, isso é o meu instrumento". O cara tirava cada som daquela máquina. Gravei tudo aquilo e fui pro estúdio misturar com outras coisas". Macalé se alimenta em tudo que pode ser usado para criar e fazer música boa, "fora do mercado". "Eu não estou nesse mercadão, não me interessa", diz o compositor


O QUE MACALÉ FAZ É MÚSICA

O Cantor, compositor e violonista Jards Macalé lança novo disco, ‘O Q Faço é Música’ hoje no Teatro Alberto Maranhão. Macalé é autor de ‘Vapor Barato’ e ‘Hotel das Estrelas’, entre outros sucessos.

Muito ingratos estes tempos em que os bom artistas perdem espaço para as bundas da MPB. O cantor, compositor e violonista carioca Jards Macalé, reconhecidamente uma das personalidades mais importantes da música brasileira, é um dos muitos nomes que foram sendo deixados de lado pela mídia ao longo dos anos. Hoje, com muita justiça, Jards Macalé é a atração maior no Teatro Alberto Maranhão, dentro do projeto Seis & Meia. O artista vem lançar o seu mais recente CD, ‘O Q Faço é Música’, lançado ano passado pelo selo Atração, depois de ficar onze anos longe dos estúdios. O show de abertura é do potiguar Cacá Cantídio.

Além de antigas composições suas, como Vapor Barante (gravado recentemente pelo grupo O Rapa), Hotel das Estrelas, Movimento dos Barcos e Anjo Exterminado, Macalé também apresentará algumas canções de seu novo disco, onde interpreta sambas tradicionais e poemas de Glauber Rocha (Rei de Janeiro) e Torquato Neto (Destino e Dente no Dente), todos musicados por ele.

Jards Macalé está no mesmo barco de Jorge Mautner, Itamar Assumpção, Tom Zé, Luís Melodia - os chamados "malditos" da MPB. Exímio violonista, sua música transita por maracatus, sambas de blocos e de breque, serestas, chorinhos, blues-canção e rock, entre outros batuques.

Ultimamente, Macalé costumava ser visto apenas em apresentações esporádicas. Seus principais discos, Jards Macalé (o primeiro, de 1972) e Aprendendo a Nadar (o segundo, de 73) foram relançados em CD nos anos 80. Depois suas aparições em disco foram se tornando cada vez mais raras.

Em setembro do ano passado, quando veio a Natal para uma apresentação no Sesc, ainda estava em estúdio concluindo "O Q Faço Música" - título inspirado na autodefinição do amigo e artista plástico Hélio Oiticica, criador da obra/conceito Parangolé, em tempos de tropicalisnio. "Só que roubei com bastante clareza, não roubei a palavra Tropicália. Questão de crédito", disse na época do lançamento, alfinetando alguns desafetos seus, como o baiano Caetano Veloso.

Aliás, sua mágoa com Caetano se arrasta há décadas e é de conhecimento do público. Em 1971, viajou para Londres, a pedido do próprio cantor baiano, para compor os arranjos do disco "Transa", uma obra-prima da MPB. Só que o seu nome até hoje nunca foi creditado.

No seu novo disco que resgata o guitarrista Lanny Gordin (que também tocou em Transa), ele dedica o choro bossanovístico "Um Abraço no Oliveira" ao mestre João Gilberto. Para alguns a atitude indica uma amenizada na rixa com Caetano. Será mesmo?

NO MUNDO - Jards Macalé nasceu no Rio de janeiro em 1943. Foi sob as orientações do maestro Severino Araújo que se iniciou na música, em 1959. Uma da suas principais características sempre foi uma profunda admiração, além do respeito, pela música brasileira de outra épocas. Sua obra está cheia de citações da Bossa Nova e Samba. Sua participação nos festivais de música dos anos 60, sua incursão pelo tropicalismo, suas críticas aos problemas sociais nacionais e o grande amor pela cultura brasileira fizeram dele conhecedor da música e história do País.

Nos anos 70, fez arranjos para Maria Bethânia, Gal Costa e Caetano Veloso. Foi autor de trilhas de sonoras de filmes como Macunaíma (1968), Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres (1977), atuando também como ator. Também trabalhou com artes plásticas com Hélio Oiticica, Lygia Clark e Rubens Guerschman. Suas canções foram gravadas por nomes como Joyce, Clara Nunes, Nara Leão, Camisa de Vênus, O Rappa, Engenheiros do Hawaii, MPB 4, Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, entre outros. Foi parceiro poético de Wally Salomão, Vinícius de Morais, Capinan e Torquato Neto. Atualmente vive um tanto recluso em seu pequeno apartamento no Rio.


Jards Macalé - Site Oficial
jmacale@brazilianmusic.com.br
Hélio Rodrigues Produções

 

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